somos, estamos

Não somos, nós estamos.

Entender que as coisas não são definitivas nos ajuda a lidar com a mudança. NÃO SOMOS, NÓS ESTAMOS.

Existe uma diferença enorme entre “ser” e “estar”. Principalmente, na nossa auto-percepção e na percepção do outro.

Por exemplo, “o Fulano é uma pessoa irritada”. Essa frase implica que Fulano irrita-se em praticamente todas situações de sua vida. É como se fosse algo imutável, uma característica da sua essência. Nada que o Fulano faça vai o tornar menos irritável. É quase que uma maldição.

Em outro exemplo, “o Fulano está irritado” ou “o Fulano tem andado irritado” muda toda perspectiva. Nessas frases, entende-se que o Fulano está passando por uma fase, por circunstâncias A ou B que têm o deixado irritadiço. Ou seja, é mutável, é uma fase, e compreensível.

 

A gente julga os outros e se avalia baseado no “somos” e não no “estamos”.

Com outras pessoas, é supernatural a gente julgar o outro de maneira definitiva: “essa Fulana é muito chata” ou “essa Fulana é muito legal”. A gente julga e qualifica outra pessoa de maneira taxativa, definitiva.

Dessa forma, se ela é chata, custamos a aceitá-la e compreendê-la, mesmo que seja legal com a gente depois. E, nessa mesma pegada, ficamos superfrustrados caso aquela fulana legal está contra a gente em algum momento.  Portanto, nosso pré-conceito nos trava.

Como se não bastasse fazer isso para os outros, geralmente usamos isso para nós mesmos, o que pode ser um tiro no pé. A gente tenta encontrar respostas e definições sobre o nosso comportamento. Essa resposta pode funcionar bem por uma semana porque nos alivia e nos mostra autoconhecimento. Porém, no longo prazo, nos trava, nos limita, nos reduz e nos impede de evoluir. E, geralmente, essas nossas auto-definições nos jogam para baixo: “eu sou ansioso”, “eu sou estressado”, “eu sou perfeccionista”, etc.

Posto tudo isso, se a gente considerar nós mesmos – e as outras pessoas com quem a gente convive – com o Estamos em vez do Somos, provavelmente vamos lidar com os outros e a com a gente mesmo de maneira mais leve, menos definitiva e mais voltada para evolução.

“Nada é permanente, exceto a mudança.” – Heráclito

Heráclito foi um filósofo que nasceu no século 5 antes da Era Comum e que, em resumo, acreditava que tudo é movimento e nada pode ficar parado. Por isso sua frase clássica, “nada é permanente, exceto a mudança”.

Para pegar uma referência mais atual, praticamente todas as células do nosso corpo se renovam a cada 7 anos (!). Segundo a publicação no site How stuff works, uma pessoa de 70 anos já mudou, no mínimo, todas suas células do corpo, por dez vezes.

Por isso, se nem o nosso corpo, nem as pessoas e nem as lojinhas do varejo da sua rua se mantém as mesmas, por que vamos achar que as coisas são imutáveis?

Compreender que não somos, mas estamos, é fundamental para adaptação às mudanças e a evolução.

COMO EU TENTO LIDAR COM O “ESTAMOS”?

Eu adoro estabilidade, confesso. Sinto quando um colega de trabalho vai embora e fico ansioso quando muita coisa está mudando ao mesmo tempo. Porém, eu me proponho, diariamente, a tentar me autocompreender nesse sentido e abraçar, cada vez mais, a mudança.

Com o tempo, a gente vê “que o mundo dá voltas”, que nem sempre “a primeira impressão é a que fica” e outros provérbios ou frases que tentam ser definitivos. As coisas mudam sim. Todas as pessoas podem mudar sim. E a gente sempre pode mudar para melhor, sim.

Um exemplo prático. Com 25 anos de idade, eu decidi listar meus 10 valores-fim, os 10 valores que pautariam o legado do meu sobrenome para meus filhos e netos. Com 35, cerca de dez anos depois, eu questionei todos esses valores e os ressignifiquei de acordo com as minhas experiências de vida e as coisas com o que eu realmente me importava. Isso quer dizer que eu estava errado ou que eu sou inconstante ou inseguro? Nada disso. Isso significa que estou cada vez mais me conhecendo, cada vez mais me adaptando às mudanças e cada vez mais predisposto a me reinventar.

Nada é permanente. Tudo são ciclos. Nós sempre estamos.

Abrace a mudança. Permita-se mudar de opinião. Permita-se não julgar os outros. Permita-se ser empático com o próximo. Permita-se autocompreender. Permita-se mudar de opinião, mudar de rumo, mudar de valores. Permita-se evoluir.

Permita-se estar e não ser. Permita-se estar feliz. Permita-se estar triste. Permita abraçar as mudanças e saborear todas as sensações.